É ego mesmo?
O que vou trazer aqui é polêmico, mas espero que eu consiga explicar o meu ponto de vista. Meu objetivo não é generalizar, mas fazer pensar, incentivar a reflexão, o questionamento, mas — especialmente — falar para vocês que, às vezes, precisamos sim CONFIAR EM NÓS E NO QUE A NOSSA INTUIÇÃO está dizendo.
A música "Everybody Supports Women", da Sofia Isella, traz o trecho: "Everybody wants you to love yourself until you actually do" (tradução: Todos querem que você se ame, até você se amar). Essa frase escancara um paradoxo social: as pessoas apoiam o “ame-se” enquanto isso não ameaça a hierarquia, a fala ou o poder simbólico de ninguém. Quando o amor-próprio vira confiança ou autonomia, o apoio acaba. E isso pode acontecer com qualquer pessoa que começa a sair do lugar de “buscadora” e entra no lugar de autorização interna.
No meio espiritual, eu vejo isso de uma forma sutil (ou não), onde existe um padrão muito comum de: “Confia na sua intuição” até a sua intuição discordar do líder, do método, da leitura dominante — aí vira: “Cuidado com o ego”, “Isso é sombra”.
Percebe a pegadinha? A confiança é incentivada só enquanto ela continua dependente. E assim, ferramentas simbólicas (astrologia, tarô, numerologia), que nasceram para ampliar a consciência, acabam sendo usadas como: freio, correção moral disfarçada, humildade seletiva.
Quase um:
“Seja confiante, mas não demais.
Seja intuitiva, mas valida comigo.
Seja potente, mas lembra de todos os seus defeitos.”
E todo mundo tem ferida, sombra, pontos cegos, pontos a serem trabalhados — ou seja, qual for o nome que você dá para eles — isso é humano. O problema que estou apontando aqui é quando isso vira instrumento para manter alguém sempre em estado de dúvida sobre si, enquanto outros ocupam o lugar de intérpretes “mais evoluídos”.
Em A Genealogia da Moral (apesar de todas as polêmicas que a obra traz), Nietzsche fala justamente sobre a moral que nasce do ressentimento, e não da força. Uma moral que aprende a desconfiar da própria potência, a chamar vitalidade de perigo (vamos pegar a ideia aqui e ignorar o contexto que ele deu), afirmação de arrogância, autonomia de desvio. Quando você traz isso para o campo espiritual, o paralelismo é quase literal: força vira “ego”, clareza vira “rigidez”, afirmação vira “sombra não trabalhada”. E o truque do sistema é genialmente cruel: não se proíbe a potência, mas ela é moralizada. Então, a potência até pode existir, desde que venha acompanhada de culpa, dúvida e autovigilância constante.
Autoconhecimento não deveria diminuir a confiança; deveria gerar ação em algum momento. Se está apenas diminuindo, algo está torto.
Quando as ferramentas são usadas de forma saudável, elas ampliam nossa visão, aumentam nosso desejo de ser melhores, fortalecem a nossa segurança interna. E sim, em um primeiro momento, podem fazer você ficar reflexiva, até meio insegura, mas isso não é um sentimento arrastado e duradouro.
E talvez o ponto mais incômodo seja esse: muita gente gosta de apoiar as pessoas enquanto pode ocupar o lugar de orientadores e guias, e não aceita quando a pessoa passa a não precisar mais de orientação constante. E o mais perverso: quem acusa nunca precisa se olhar; o lugar de “quem aponta a sombra” vira automaticamente o lugar do “mais consciente”. Curiosamente, o ego problemático nunca é o do guia, do mentor.
Uma espiritualidade madura:
não cria sujeitos dóceis
não premia a autoanulação
não confunde humildade com apagamento
Ela forma pessoas inteiras, não pessoas “boazinhas”. E o que me incomoda é ver ferramentas que poderiam libertar sendo usadas para produzir sujeitos domesticados, cheios de linguagem simbólica, com mil ideias boas e zero confiança para colocá-las em prática. E perceber isso não te torna menos espiritual — talvez menos governável.

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